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- 05/02/2019 - 07:00
Cresce número de mais escolarizados que desistem de procurar emprego

“Cansei de esperar o mercado melhorar”, resume a engenheira Adriana Mello, de 28 anos. “Parece que agora está mais fácil de arrumar um emprego, mas só parece. Não voltei a procurar o dia inteiro, como fazia antes, porque as vagas que aparecem têm remuneração de R$ 3 mil, quando o piso é três vezes mais. Querem que você tenha as mesmas responsabilidades de antes, sem ganhar o suficiente.”

Desde que Adriana perdeu o emprego, em maio do ano passado, ela passou a usar o tempo livre para fazer cursos e melhorar o inglês. Mas as contas, que eram divididas com o marido, pesam mais. “De 2015 para cá, o mercado piorou. Quem ganhava R$ 7 mil, agora topa ganhar R$ 3 mil. E quem pode esperar, aproveita para voltar ao mercado com mais formação.”

Na avaliação de especialistas, o número de desalentados – os trabalhadores que pararam de buscar emprego por um tempo – com maior formação deve cair lentamente, já que, na saída da crise, as vagas que têm surgido são de remuneração mais baixa. 

O desalentado é o brasileiro que gostaria de estar trabalhando, mas não tem incentivo para procurar trabalho por um período, seja pela dificuldade em se recolocar no mercado de trabalho ou porque as oportunidades que aparecem agora não são atrativas e ele pode esperar que as coisas melhorem. 

“Ele faz parte da força de trabalho potencial”, explica o economista Bruno Ottoni, pesquisador da consultoria IDados. “Em geral, o desalento cresce em um mercado de trabalho que não está funcionando direito. E na saída da crise, o número de pessoas nessa situação cresce porque as poucas vagas que reapareceram no mercado agora pagam pouco.” 

Ele lembra que o trabalhador, muitas vezes, acaba preferindo ficar em casa ou começar a fazer algum curso, fica mais ou menos em um compasso de espera até que surjam oportunidades.”

O também engenheiro Diogo Dutra da Silva, de 29 anos, está fora do mercado de trabalho desde a conclusão das obras de um edifício na zona leste de São Paulo, em 2017. “Trabalhava em uma construtora que viu as obras rarearem durante a crise. Em 2015, começou a diminuir a quantidade de projetos e o número de funcionários da empresa. Quando o prédio ficou pronto, perdi o emprego.”

Ele concorda que as vagas que surgiram entre o ano passado e o início de 2019 têm remuneração baixa demais, a ponto de compensar esperar mais um pouco. “Sempre fui de gastar pouco e durante o período de emprego farto, guardei dinheiro. Essa poupança me ajuda agora a não precisar aceitar qualquer vaga que for aparecendo”, diz. 

Baixa expectativa

Na semana passada, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou que os brasileiros que caíram no desalento atingiram média de 4,736 milhões – 13,4% acima de 2017. Nessa conta, entram os que se achavam jovens ou idosos demais, pouco experientes ou acreditavam que não encontrariam uma boa oportunidade de trabalho.

“Tem gente que já consegue encontrar o trabalho com carteira assinada mais facilmente do que há alguns meses, mas as condições nem sempre são boas. Se a pessoa pode esperar mais um pouco para conseguir um emprego mais próximo de suas expectativas, ela acaba se virando, conta com as economias ou ajuda de parentes e espera”, concorda o economista da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) Eduardo Zylberstajn. 

A expectativa do economista do Insper Renan de Pieri é de que o País gere mais empregos este ano do que em 2018, quando o desemprego cedeu apenas timidamente, e fechou o último trimestre em 11,6% – ante 13,1% do início do ano passado. 

“Mas a reinserção dessas pessoas no mercado de trabalho não vai ocorrer rapidamente. O Brasil formou um exército de desalentados, quando o mercado melhorar, eles vão voltar a procurar por emprego e precisarão ser reabsorvidos”, diz.

 

Fonte: Estadão

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