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- 25/02/2017 - 11:24
Pedestre: travessia segura ainda é desafio

Quem circula a pé por Fortaleza esbarra em calçadas deterioradas e na má educação de condutores

A convivência segura no trânsito requer atenção e cuidado de condutores, motociclistas, ciclistas e pedestres. Porém, no cotidiano das grandes cidades, a segurança viária desses últimos nem sempre é possível. Só no Instituto Doutor José Frota (IJF), em 2016, foram realizados 1.959 atendimentos de pedestres envolvidos em acidentes de trânsito. Embora alto, o número é 5% menor em comparação com 2015, que teve 2.063 atendimentos, e 25% inferior em relação a 2014, que marcou 2.592.
 

“Embora os acidentes sejam distribuídos em todas as idades, são predominantes em crianças e idosos”, esclarece o diretor médico do IJF, Osmar Aguiar. Se, por um lado, a criança não consegue discernir o perigo de correr na rua, o idoso desenvolve problemas de visão que diminuem a percepção do campo de profundidade e, consequentemente, acaba calculando errado as distâncias de locomoção. Por isso, são atingidos por carros, motos e até bicicletas, sofrendo lesões graves como fraturas de fêmur e traumatismo cranioencefálico. A situação piora porque o trauma se alia a doenças crônicas que aumentam ainda mais os tempos de internação, recuperação e reabilitação.

Os dados reunidos pelo Departamento Estadual de Trânsito (Detran-CE) também chamam atenção: em 2015, houve 1.281 atropelamentos e 425 mortes de pedestres, ou seja, 16% dos óbitos envolvidos em acidentes. No primeiro semestre de 2016, foram 602 atropelamentos e 168 pedestres mortos, 15,7% das mortes no trânsito. As ocorrências se concentram, respectivamente, em vias municipais do Interior, nas da Capital, nas CEs e, por último, nas BRs.

Além disso, um estudo feito entre o instituto Bloomberg pela Segurança Viária e a Prefeitura de Fortaleza indica que, na Capital, os pedestres são os que mais morrem em decorrência de acidentes: em 2015, dos 315 mortos no trânsito, 119 (37,8%) andavam a pé. O levantamento colocou os bairros Centro, Montese, Parangaba, Barra do Ceará e Aeroporto como regiões de maior concentração de sinistros.

Cuidados

Na Avenida Leste-Oeste, segundo moradores, acidentes e atropelamentos são comuns. Até uma cruz foi implantada no canteiro central para simbolizar as vítimas que perderam a vida no asfalto. “Não confio nem no semáforo. Só passo quando todos os carros param”, revela a aposentada Maria de Lourdes Rodrigues, 66. “Acho que se tivesse um fotossensor, a situação ia ser diferente”, opina a dona de casa Francisca Sales, 32.

Os acidentes registrados na Avenida João Pessoa chegam a alterar a rotina do estudante Renato Goes, 20. “Para ir ao cursinho, prefiro pegar ônibus em vias laterais, porque é difícil atravessar mesmo com o semáforo”, relata. O motorista Wagner Batista, 28, se defende: “A gente fica sempre atento à sinalização, mas cada caso é um caso. Acho que os acidentes ocorrem porque alguém dá bobeira”.

O médico Osmar Aguiar acredita que a diminuição no número de atendimentos no IJF pode estar relacionada à adequação de novas sinalizações, mas as ocorrências ainda são significativas. “Qualquer diminuição no número de acidentes de trânsito daria um aporte melhor para facilitar o atendimento de outros casos”, estima.

Visando mais segurança para pedestres e pessoas com mobilidade reduzida, conforme a Secretaria Municipal de Conservação e Serviços Públicos (SCSP), 26 travessias elevadas para pedestres foram instaladas no entorno de escolas e unidades de saúde de diversos bairros. Os equipamentos são elevados em 15 cm para ficarem no mesmo nível das calçadas.

Em 2016, o bairro Rodolfo Teófilo recebeu um painel eletrônico educativo e o limite de velocidade máximo de 30km/h, caracterizando a primeira Área de Trânsito Calmo da cidade. No pacote de obras viárias, também foram implantadas quatro faixas de pedestre diagonais, “em X”, para reduzir o tempo de travessia dos transeuntes. Segundo a SCSP, novas intervenções seguem em estudo.

Em 2014, Fortaleza ganhou uma lei municipal denominada “Sinal de Respeito”, que determina prioridade na travessia do pedestre quando ele fizer um sinal com o braço indicando o desejo de atravessar a faixa. Em trechos onde ela não exista, o pedestre também pode sinalizar, mas apenas quando as condições de tráfego não ofereçam risco.

A medida, em tese, requer mais atenção dos motoristas. Contudo, para o presidente da Comissão de Especial de Assuntos e Estudos sobre Direito do Trânsito e Tráfego da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-CE), Mário Jatahy de Albuquerque, ela tem difícil aplicabilidade. Antes, ele defende que o poder público invista no Plano de Mobilidade Urbana (PMU), instrumento de organização viária para municípios com mais de 20 mil habitantes. “O deslocamento na cidade, seja como for, deve ser priorizado”, sintetiza.

Segundo o Ministério das Cidades, no Ceará, apenas Fortaleza declarou ter elaborado o PMU. Em todo o Brasil, dos 3.341 municípios onde ele é necessário, apenas 175 informaram possuí-lo. Os outros devem implementá-lo até 2019; caso não, ficam impedidos de receber investimentos da União em projetos de mobilidade.

Outro ponto a ser observado, segundo o advogado, é a qualidade das calçadas da cidade, principal suporte no tráfego de pedestres. “A construção das calçadas deve ser regulamentada para evitar que condições adversas os obriguem a caminhar no meio da rua. É comum vermos calçadas deterioradas, cheias de lixo ou com motoqueiros trafegando por cima”, observa Jatahy.

Fonte: http://diariodonordeste.verdesmares.com.br/cadernos/cidade/pedestre-travessia-segura-ainda-e-desafio-1.1711387

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