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- 04/09/2019 - 07:00
Estiagem impulsiona mudança de culturas no agronegócio cearense

Com o prolongado período de estiagem sobre o semiárido cearense, produtores tiveram de buscar alternativas para rentabilizar suas terras. Culturas como a de banana e abacaxi cederam espaço a produtos com menor dependência hídrica, como a pitaya e a palma forrageira. A pitaya, originalmente cultivada em regiões áridas, possui valor de mercado elevado, se comparada a outras variedades de frutas.

Segundo o secretário de agronegócio da Secretaria de Desenvolvimento Econômico e Trabalho (Sedet), Sílvio Carlos Ribeiro, há cerca de 20 hectares de plantações de pitaya no Ceará, volume considerado pequeno, mas que deve crescer nos próximos anos. “O que falta ainda é a técnica adequada para esse cultivo. No início, o produtor vai ter de arcar com um investimento um pouco alto, por ser uma cultura exótica, mas, ao mesmo tempo, a rentabilidade é muito maior”, destaca.

Apesar da produção ainda ser pequena, Ribeiro aponta que alguns países europeus já demonstraram interesse em comprar o produção do Ceará. “Parte já vai, principalmente, a estados do Sudeste e, até o fim do ano, devemos começar a mandar para fora”.

Demanda e preços

O cultivo da fruta-dragão, como também é conhecida, expandiu-se do Sul e Sudeste para o Nordeste em 2017 e instalou-se principalmente no Ceará e na Paraíba, segundo o analista de mercado da Central de Abastecimento do Ceará (Ceasa), Odálio Girão.

“Muitos produtores da região do Baixo Jaguaribe trocaram o abacaxi e a banana pela pitaya, que precisa de bem menos água para se manter. Além disso, o valor de venda naquela época estava muito bom, em torno de R$ 25 o quilo, no atacado. Hoje o preço varia de R$ 15 a R$ 17, o que é atrativo para o produtor”. Já para o consumidor, o quilo pode chegar a R$ 40 na Capital.

Segundo Girão, a safra da fruta se dá sobretudo no segundo semestre e o maior volume de vendas ocorre em dezembro, com o aumento da demanda provocada pelas festas de fim de ano. “O período seco é mais convidativo para a produção. E a expectativa é de que a partir de outubro ou novembro a busca por ela cresça bastante”, diz.

Além da região do Baixo Jaguaribe, a fruta também é produzida no Sertão Central. “Para alguns produtores, a pitaya se tornou uma alternativa a outras culturas, para outros ela é um produto a mais para garantir renda”.
Além da pitaya, a palma forrageira, que já era cultivada antes da crise hídrica se agravar, ganhou mais espaço. Silvio Carlos revela que parte da produção de leite no Estado se deve a essa cultura.

“Ela é utilizada quase exclusivamente para alimentar o gado. A produtividade dela é impressionante. Tem gente que diz que a palma chega a dar 400 toneladas (t) por hectare (ha) ao ano, consumindo apenas cinco metros cúbicos (m³) por hectare, enquanto a banana, por exemplo, requer 20 mil m³/ha”. Ele acrescenta que há mais de mil hectares de palma plantados no Ceará.

Camarão

Outro cultivo que acabou servindo de alternativa para os produtores do interior foi o camarão. Com a estiagem, a salinidade de muitos reservatórios foi aumentando, tornando inviável, por exemplo, o plantio de feijão e arroz. Assim, a criação de camarão começou a migrar para o sertão em 2015. Desde então, pequenas e médias criações começaram a se multiplicar às margens do rio Jaguaribe, de Jaguaruana até Icó, passando por Russas, Morada Nova, Alto Santo e Jaguaribe.

Com rentabilidade significativamente superior à de atividades agropecuárias, a carcinicultura acabou se tornando uma alternativa para pequenos e médios produtores afetados pela estiagem, sem depender de investimentos elevados para instalação dos tanques. A região do Baixo e Médio Jaguaribe, onde antigos produtores rurais passaram a cultivar o crustáceo, responde hoje por cerca de 10% da produção de camarão do Ceará. E a expectativa é de que nos próximos anos essa participação chegue aos 20%.

Apenas em Jaguaruana, onde a criação de camarão em cativeiro já é a principal atividade econômica, há cerca de 500 pequenos e médios criadores de camarão. Em Morada Nova, nas áreas onde há cerca de dois anos se cultivava arroz, agora prospera a criação de camarão, com rentabilidade três vezes maior.

Reposicionamento

O titular da Sedet, Maia Júnior, aponta que está vendo a necessidade, não só por fatores climáticos, de repensar o desenvolvimento do agrone-gócio do Ceará.

“Precisamos priorizar culturas que demandem menos recursos hídricos e tenham maior valor agregado. Para isso, estamos aproximando o produtor da Academia, através da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) e das universidades para que esse conhecimento chegue à prática. Ainda estamos intermediando com a indústria, para que a produção tenha para onde escoar”.

O secretário cita o programa Cientista Chefe, no qual equipes de pesquisadores trabalham para identificar soluções de ciência, tecnologia e inovação que podem ser implantadas para melhorar os serviços, como uma das formas de fazer essa aproximação entre as instituições.

“E já temos tido resultados. Um deles é o da cerveja Legítima, que utiliza mandioca na sua fabricação. Nós articulamos os produtores para que a Ambev utilize o produto daqui. Devemos ter um exemplo parecido agora com a cana-de-açúcar e a instalação da Diageo”, ressalta.

Maia Júnior afirma ainda que várias outras colheitas alternativas estão em fase de teste e experimentação, para que esse reposicionamento do agronegócio cearense aconteça. Entre elas estão cacau, trigo, romã, caqui, mirtilo, entre outras. “Algumas culturas vão realmente ser substituídas. Ou a gente realmente muda para uma maior produtividade ou não vamos ver nenhuma mudança no agrone-gócio”, aponta.

Panorama hídrico

Apesar da quadra chuvosa deste ano ter sido acima da média, a situação dos reservatórios do Estado ainda preocupa. Segundo o último Levantamento Sistemático da Produção Agrícola (LSPA), elaborado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), entre 16 de junho a 15 de julho de 2019, apenas duas macrorregiões apresentaram chuvas acima da média: Cariri e Sertão Central, além de Inhamuns. As seis demais ficaram abaixo da média de chuvas para o período: Ibiapaba, Jaguaribana, Litoral do Pecém, Maciço do Baturité, Litoral de Fortaleza e Litoral Norte.

“No cômputo geral, o Ceará apresentou desvio percentual negativo entre a média das normais e a média das pluviosidades observadas (-25,3%)”, diz o IBGE. Já em relação à situação dos reservatórios cearenses, os 155 açudes monitorados pela Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos (Cogerh) possuem uma capacidade total de 18.617 hectômetros cúbicos (hm³), mas o Ceará só está com apenas 20,4% desta capacidade, que corresponde ao volume de 3.801 hectômetros cúbicos.

Fonte: Diário do Nordeste

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