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- 09/09/2019 - 07:00
É o mundo inundado de dinheiro

Analistas e investidores estão muito preocupados com a perspectiva da persistência de juros muito baixos no mercado internacional e seu impacto sobre as aplicações financeiras, inclusive no Brasil. Mas, ao mesmo tempo, parecem desconsiderar as razões da inflação insistentemente muito baixa.

Dia 29 de agosto, em entrevista ao Estadão/Broadcast, o administrador de um dos fundos de investimento de maior sucesso no Brasil, Luís Stuhlberger, afirmou que o problema dos juros negativos é tão grave que a saída presumivelmente será uma poda generalizada dos ativos financeiros (e, portanto, também dos patrimônios), que ele chama de Plano Collor em escala global.

No mundo, há cerca de US$ 13 trilhões em títulos de dívida emitidos por Tesouros nacionais e por empresas (mais de 30% do total) que, no momento, proporcionam rendimento negativo. Ou seja, o investidor tem de pagar para emprestar seu dinheiro.

Por toda parte, grandes bancos centrais operam com juros reais ou negativos ou em torno de zero por cento ao ano. Os grandes bancos estão abarrotados de dinheiro para o qual não encontram aplicação a não ser depositar as megassobras nos seus bancos centrais, tendo de pagar por isso. Na Alemanha, pagam 0,44% ao ano. Ou seja, embora estejam longe das proporções que ameaçam tirar o sono do administrador de fundos Luís Stuhlberger, as tesouradas de patrimônio financeiro já começaram.

A história da economia nos conta que, diante do excesso de dinheiro, a inflação dispara. Isso valeu tanto para a Espanha do século 17, quando do despejo de ouro e prata de suas colônias no Novo Mundo, quanto nas espetaculares hiperinflações do século 20.

Em primeiro lugar, essa dinheirama de hoje não produz inflação porque não está sendo empurrada para o consumo. É entesourada. Sem consumo adicional, não há aumento significativo da procura por bens e serviços e, portanto, não há aumento de preços.

Fator ainda mais importante, chegamos a um momento da história da economia em que se sentem fortemente os efeitos do processo de globalização, que pode ser definido como busca compulsiva do mais barato e do custo mais baixo. É o efeito do aumento do comércio exterior nos últimos 30 anos, do barateamento dos fretes, que se conjugou ao incremento da produtividade dos transportes e do aumento da produção com base nos salários mais baixos (principalmente da Ásia).

Finalmente, a forte redução de custos acontece no mundo graças à automação intensiva e ao uso cada vez maior de tecnologia da informação, que inclui não só internet e computadores em larga escala, mas também os aplicativos. Por conta disso, os custos de produção desabaram; os bancos substituem agências e funcionários por caixas automáticos e serviços na internet; o comércio varejista adere em massa às vendas online que, por si sós, produzem uma revolução baixista na administração de estoques; e se espalha o fenômeno da economia compartilhada, como Uber, 99, Airbnb, Booking – e isso é só o começo.

E não dá para ignorar outro fator fortemente baixista. A grande sobra de dinheiro, as incertezas com o que acontecerá se for confirmada uma forte desvalorização patrimonial, a expectativa de uma nova recessão mundial e possivelmente outras fontes de inquietação puxaram o breque dos investimentos. Quem é que pretende despejar dinheiro pesado em projetos de investimento se, dentro de mais algum tempo, o custo do crédito pode cair ainda mais? A guerra comercial em curso também trabalha na mesma direção, porque tende a tirar mercado futuro das empresas e derrubar negócios.

Os bancos centrais pouco podem fazer, porque o problema não é mais de falta de crédito ou de falta de dinheiro. Nem há mais espaço para novos cortes de juros. E seguir comprando títulos no mercado para aumentar a demanda, como fizeram desde a crise de 2008, implica continuar o processo de inundação dos mercados com recursos.

Tem sido repetido que a salvação não vem mais da política monetária (manejo de dinheiro e dos juros), mas terá de vir da política fiscal, ou seja, do aumento das despesas dos governos. O problema aí é que, por toda parte, os Tesouros estão quebrados e desse pote também não se tira mais melado.

Enfim, não há saída fácil. E, neste momento, não há nem ideia clara sobre o que fazer.

Fonte: Estadão

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