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- 10/09/2018 - 09:09
A reconstrução da Apple: menos hardware e mais serviços

Desde sua criação, em 1976, a Apple busca se reinventar a cada ano. Com a renúncia e morte de Steve Jobs, em 2011, Tim Cook assumiu o cargo de CEO da companhia com uma difícil tarefa: dar continuidade ao legado de seu fundador. Formado em engenharia industrial pela Universidade de Auburn, nos Estados Unidos, Cook já estava na companhia há 13 anos.

O executivo assinava na Apple como diretor de operações e era responsável pela estratégia de vendas da companhia em âmbito global – respondendo diretamente para Steve Jobs. Durante sua trajetória, compartilhou palcos com Jobs durante lançamentos e apresentações oficiais da companhia. Cook sempre foi visto como um homem de negócios, já que antes de chegar à empresa da maçã passou pela IBM, como diretor responsável pela área de PCs da empresa e pela Compaq, como vice-presidência de materiais corporativos.

Em 2004, Cook já havia exercido funções de presidente-executivo da Apple por dois meses durante a recuperação de Jobs de sua cirurgia para retirada de um tumor do pâncreas. Em 2009, voltou ao controle da empresa enquanto seu superior passava por um transplante de fígado. Assim que o afastamento de Jobs foi anunciado, as ações da companhia na bolsa de valores caíram. Quando assumiu o controle, portanto, Cook teve a difícil missão de acalmar os investidores da empresa e dar continuidade ao legado de seu antecessor.

Uma nova Apple

Sob a liderança de Tim Cook a companhia foi, aos poucos, se transformando. A empresa, que era estruturada em silos internos para manter sigilo, passou a ser mais integrada com a gestão de Cook – que eliminou a maioria dessas estruturas com o objetivo de tornar o ambiente mais colaborativo.

O executivo rapidamente ficou conhecido por essa gestão de trabalho focado em equipes, desenhando a companhia de forma horizontal, para que os times de hardware, software e serviços trabalhassem juntos. Em setembro de 2011, eram 60,4 mil colaboradores, número que passou de 110 mil em 2015. Cook também começou a se comunicar mais com as equipes, enviando e-mails e se referindo aos funcionários como “seu time”.

O executivo também passou a valorizar mais os acionistas da empresa. Jobs era avesso ao retorno de capital dos investidores, preferindo acumular fundos. Contra isso, o novo presidente da companhia criou um programa de retorno de capital da Apple. Entre junho de 2012 e o mesmo mês de 2016, a empresa pagou um total de 177 bilhões de dólares em dividendos e recompras de ações.

O envolvimento com a mídia também mudou com a chegada de Cook. Durante anos a Apple esteve afastada dos meios de comunicação – poucos veículos tinham acesso à dados e declarações da companhia. Após se tornar CEO, Cook resolveu transformar isso – garantindo mais entrevistas com executivos e respondendo a mídia.

Ações sociais também não ficaram de fora na nova gestão. Cook foi responsável por uma nova era de responsabilidade social da Apple, implementando programas de filantropia e reduzindo a responsabilidade ambiental da empresa. Em 2014, a companhia foi considerada pela Greenpeace a mais sustentável no setor de tecnologia e internet. A empresa garantiu o primeiro lugar por ser a única a usar 100% de energia renovável para servidores de armazenamento de serviços como o iTunes e o iCloud.

As mudanças geraram resultados. Nos quatro trimestres fiscais anteriores à morte de Jobs, a Apple vendeu 72,2 milhões de iPhones e gerou 108,2 bilhões de dólares em vendas, alcançando um rendimento líquido de 25,9 bilhões. Cinco anos depois, em 2016, a empresa alcançou um recorde mundial de 74,8 milhões de iPhones, gerando 220 bilhões de dólares em vendas e um rendimento líquido de quase 50 bilhões de dólares.

Menos hardware e mais serviços

Os icônicos iPods, responsáveis em 2005 por 50,5% da receita da Apple, hoje não chegam a 1% das vendas. Os iPhones ocuparam o lugar no pódio, com 56,2% de toda a empresa. Apesar disso, as novidades do aparelho – lançado em 2011 – não são mais suficientes para registrar um extraordinário aumento nas vendas. 

A companhia, que tem mais de 810 milhões de usuários de iPhone, notou o crescimento de outro setor: serviços. Com os licenciamentos, vendas na loja de aplicativos, streaming de música e funcionalidades do pagamentos Apple Pay, a empresa cresceu com uma receita de US$9,5 bilhões no trimestre terminado em julho – 37% a mais em relação a 2017, o maior já registrado. O cenário é favorável para a companhia se reinventar. 

Casas conectadas

Em 2014, a Apple lançou o HomeKit – plataforma responsável pela comunicação de acessórios eletrônicos. O objetivo era simples: transformar casas em ambientes inteligentes e conectados. A ferramenta é capaz de controlar lâmpadas, aspiradores de pó, cortinas, ar condicionados e outros objetos por aplicativos compatíveis. Os apps não precisam ser do mesmo fabricante e podem ser controlados por comandos de voz da Siri.

Já em 2016, entre as principais novidades do iOS 10 estava o aplicativo Home. A ideia era transformar tablets, smartphones ou apple watches em um controle remoto de uma casa conectada. Na prática, o aplicativo reúne em um só lugar todos os gadgets domésticos equipados com HomeKit. Os usuários podem, por exemplo, controlar a temperatura ou a intensidade das lâmpadas no ambiente.

Por meio do aplicativo é possível também criar perfis predefinidos. Por exemplo: ao sair de casa, o usuário pode dizer “Siri, estou saindo” e ativar uma série de funcionalidades, como desligar o termostato, fechar as janelas e ativar os alarmes. O processo inverso pode ser feito para preparar a residência para a chegada do cliente.

Carros autônomos

Em 2017, a Apple deu mais um passo no setor de serviços. Tim Cook anunciou que a empresa estaria trabalhando no desenvolvimento de sistemas autônomos para automóveis. O executivo definiu o projeto como “a mãe de todas as inteligências artificiais”. A empresa deixou clara que o foco de seu investimento estava na tecnologia que permitirá que os veículos circulem, e não na produção de seu próprio carro.

Pouco tempo depois a Apple já testava seu sistema de veículos autônomos. Na época, os testes foram feitos com um Lexus RX350. O SUV foi equipado com câmeras e radares por todo o carro – seis na dianteira e outros seis na traseira. Em janeiro de 2018, a frota de veículos da empresa passou de três para 27.

Em maio de 2018, já eram 55 carros autônomos registrados no Departamento de Veículos Motorizados da Califórnia (DMV), se tornando a segunda maior frota do estado, atrás apenas da Cruise Automation — subsidiária da General Motors que tem 104 veículos autoguiados rodando.

Apple x Netflix

Ampliando ainda mais o seu leque de serviços, a empresa expressou a vontade de concorrer com plataformas como o Netflix e ter suas próprias produções audiovisuais. No final de 2017, a empresa contratou Tara Sorensen, Jamie Erlicht e Zack Van Amburg, profissionais responsáveis pela divisão de programas e séries da Amazon e Sony.

Na mesma época, foi cogitado, inclusive, que a gigante de tecnologia poderia comprar a Netflix ou até mesmo a Disney. Segundo o Wall Street Journal, a empresa optou por seguir o caminho sozinha, separando US$ 1 bilhão para começar a estrear suas próprias séries. Mesmo longe dos US$ 7 bilhões investidos pela Netflix e dos US$ 4 bilhões desembolsados pela Amazon, a estratégia pode alcançar rapidamente as concorrentes.

Em junho do mesmo ano, a Apple começou os trabalhos no mercado de conteúdo para TV com o reality show Planet of the Apps, disponível via streaming na plataforma iTunes. Com dez episódios, desenvolvedores de aplicativos apresentavam suas ideias para um time de jurados composto pelo idealizador do programa, o músico Will.i.am, o empreendedor Gary Vaynerchuk e a as atrizes Gwyneth Paltrow e Jessica Alba, ambas já envolvidas com tecnologia.

Essa foi considerada por muitos a estratégia inicial da Apple para construir a base de um novo serviço de streaming exclusivo. Em junho de 2018, a empresa fechou contrato com nomes de peso da indústria de entretenimento, como Oprah Winfrey e Steven Spielberg. A companhia afirmou, sem muitos detalhes, que tem como objetivo criar uma programação original de conteúdos. Até então, fez acordos para doze projetos.

O primeiro trilhão

Em agosto de 2018, a Apple atingiu um marco histórico. Com Cook na liderança, a companhia passou a valer US$ 1 trilhão na Bolsa de Valores. No mesmo dia, as ações da companhia fecharam em US$ 207,39, o que elevou o valor da empresa para US$ 1,001 trilhão. Com isso, a companhia se tornou a primeira dos Estados Unidos a conquistar essa marca.

No primeiro trimestre do ano, a empresa aumentou em 17% sua receita para US$ 53,3 bilhões, um novo recorde graças às vendas dos iPhones X, Apple Watch, AirPods e Apple TV. Com a divulgação dos dados, cresceram as apostas de que os resultados da companhia seriam ainda melhores, fazendo com que mais investidores buscassem comprar ações. Na corrida pelo trilhão também estavam a Amazon, Alphabet e Microsoft.

A primeira a atingir esse marco foi a petrolífera chinesa PetroChina, que chegou a ter esse valor durante 15 dias em 2007, durante um forte movimento especulativo na bolsa de Xangai, mas em menos de um ano a empresa de energia estatal já estava valendo metade – cerca de US$ 500 bilhões. Hoje, a gigante está avaliada em US$ 194 bilhões.

Em uma carta enviada para os funcionários, Cook afirma que a marca alcançada é resultado da inovação da empresa, mas que essa não é a medida mais importante da companhia, reforçando a ideia de que o futuro pode ser ainda mais promissor. 

“Hoje a Apple passou um marco significativo. Com um preço de fechamento de US$ 207,39, o mercado de ações agora valoriza a Apple em mais de US$ 1 trilhão. Embora tenhamos muito o que nos orgulhar, essa não é a medida mais importante do nosso sucesso. Os retornos financeiros são simplesmente os resultados da inovação da Apple, colocando nossos produtos e clientes em primeiro lugar e sempre permanecendo fiéis aos nossos valores.

É nossa equipe que torna a Apple ótima e nosso sucesso se deve ao trabalho árduo, dedicação e paixão de todos. Estou profundamente honrado com o que todos fizemos e é um privilégio de uma vida inteira trabalhar ao lado de vocês. Quero agradecer do fundo do meu coração por todas as horas tardias e viagens extras e por todas as vezes que vocês recusaram aceitar nada menos do que a excelência em nosso trabalho em conjunto.

Vamos aproveitar este momento para agradecer nossos clientes, nossos fornecedores e parceiros de negócios, a comunidade de desenvolvedores da Apple, nossos colegas de trabalho e todos aqueles que vieram antes de nós nesta notável empresa. Steve fundou a Apple na crença de que o poder da criatividade humana pode resolver até mesmo os maiores desafios – e que as pessoas que são loucas o suficiente para pensar que podem mudar o mundo são as que realmente mudam.

No mundo de hoje, nossa missão é mais importante do que nunca. Nossos produtos não apenas criam momentos de surpresa e prazer, mas capacitam pessoas em todo o mundo para enriquecer suas vidas e as vidas de outras pessoas. Assim como Steve sempre fez em momentos como este, todos nós devemos olhar para o futuro brilhante da Apple e o ótimo trabalho que faremos juntos.”

 

Fonte: StartSe

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